Patronos

Conheça um pouco da vida e obra dos Patronos do Centro de Letras do Paraná

Emiliano Perneta

Euclides Bandeira

 
Emiliano Perneta

Emiliano David Perneta (Curitiba, 3 de Janeiro de 1866 - 21 de Janeiro de 1921) foi um poeta brasileiro. Nascido em um sítio de Pinhais, na zona rural de Curitiba, incorporando ao sobrenome um apelido de seu pai.

 

Considerado maior poeta paranaense, começou influenciado pelo parnasianismo. Republicano no Império, tanto que no dia 15 de novembro de 1889 formou-se em Direito, sendo escolhido orador da turma, fez um discurso inflamado em defesa da República, sem saber que a mesma havia sido proclamada horas antes no Rio de Janeiro. Foi abolicionista, continuando nos ideais da liberdade.

 

Passa a fazer palestras, publica artigos políticos e literários, assim como passa a incentivar, em Curitiba, a leitura do escritor Baudelaire, fato marcante para o surgimento do simbolismo no Brasil.

 

Publicou seus primeiros poemas em O Dilúculo, de Curitiba, em 1883. Mudou-se para São Paulo em 1885, onde fundou a Folha Literária, com Afonso de Carvalho, Carvalho Mourão e Edmundo Lins, em 1888. No mesmo ano publicou as obras poéticas Músicas, de versos parnasianos, a Carta à Condessa d’Eu. Foi também diretor da Vida Semanária, com Olavo Bilac, e colaborador do Diário Popular e Gazeta de São Paulo. Mudou-se para o Rio de Janeiro em 1890. Lá, colaborou com vários periódicos e, em 1891, foi secretário da Folha Popular, na qual foram publicadas as manifestações iniciais do movimento simbolista, assinadas pelos poetas B. Lopes, Cruz e Sousa e Oscar Rosas.

 

De volta ao Paraná, criou a revista simbolista Victrix em 1902. Em 1913 publicou o poema livreto Papilio Innocentia, para a ópera do compositor suíço Léo Kessler, sobre o romance Inocência de Visconde de Taunay.

 

Sua obra poética inclui Ilusão (1911), no qual se faz presente a estética simbolista, Pena de Talião (1914) e os póstumos Setembro (1934) e Poesias Completas (1945).

 

Pelo seu dinamismo e obras, foi homenageado por diversos contemporâneos, entre eles Nestor Victor, Lima Barreto e Andrade Muricy. Tais homenagens aconteceram em vida e também após a sua morte, ocorrida no dia 21 de Janeiro de 1921 na pensão de Otoo Kröhne, na Rua XV de Novembro, 84.


Principais Obras


Ilusão (poemas – 1991),
Pena de Talião (1914),
Setembro (poemas – 1934) (póstumo).


Alguns de seus Poemas

Para um coração

Um dia, vi-te, assim, bailando,
E a uma pergunta, que te fiz,
Tu respondeste : "Eu amo, e quando,
E quando eu amo, eu sou feliz!"

Por uma noite perfumada,
Cantaste, sobre o teu balcão.
E eu disse, ouvindo a áurea balada :
- Ah! Que feliz é o coração!

Quanta felicidade, quanta,
Não há ninguém feliz assim :
Um dia baila e noutro canta,
Como se fosse um arlequim...

Eu disse .. Mas agora vejo,
Nesse silêncio tumular,
Que estás sofrendo, e o teu desejo
Já não é mais o de bailar...

Nem de bailar, e nem, de certo
De nada mais, de nada mais...
Que fazes, pois, triste deserto,
Que fazes pois, que não te vais?

Mas, choras, creio, choras? Onde?
Se viu chorar um Lucifer?
Pobre diabo, vamos, esconde
Essas fraquezas de mulher...



Setembro

Eu ontem vi chegar, quase que à noitezinha,
Apressada e sutil, a primeira andorinha...

É a primavera, pois, em flor, que se anuncia,
É setembro que vem, bêbedo de ambrosia.

Mãos doiradas, a rir, mãos leves e radiosas,
Semeando à luz e ao vento as papoulas e as rosas...

Como foi para nós de um esquisito gozo,
Ó minha alma! esse doce, esse breve repouso,

Que entre o nosso viver tumultuário e incerto
Surgiu como se fosse o oásis do deserto...

 

 

Colaboração:
Paulo Roberto Karam,
do Centro de Letras do Paraná e da Academia Paranaense da Poesia

 
Euclides Bandeira

Euclides da Motta Bandeira e Silva, nasceu em Curitiba, em 22 de novembro de 1876, filho de Carlos da Motta Bandeira e Silva e de Dona Thereza Maria da Silva. Seus antepassados foram fundadores da Cidade, trazendo sua linhagem de Baltazar Carrasco dos Reis.

 

Fez os estudos preparatórios em Curitiba, nos quais foi aprovado com distinção na "Escola dos Bons Meninos" do Dr. José Cleto da Silva, obtendo a medalha de ouro, no dia 24 de dezembro de 1890.

 

Matriculado na Escola Militar do Rio de Janeiro, teve seus estudos interrompidos em 1895 em decorrência da extinção pelo governo da Escola Militar. Durante sua permanência nas linhas executou tarefas militares tanto nas trincheiras de terra como a bordo do vaso Itaipu. Na sua fé de ofício consta elogio por suas atividades contra o Aquidaban.

 

Regressando a Curitiba, foi-lhe oferecido emprego nos Correios, que ele não aceitou, preferindo dedicar-se ao jornalismo, trabalhando ativamente como repórter, articulista, redator e diretor. Iniciou sua carreira no periódico "A Luz", cujo primeiro número saiu em 15 de janeiro de 1890, publicação quinzenal do Centro Espírita; "o Artista", 1892; "Azul", em 4 de março de 1900, de tendência simbolista, juntamente com Santa Rita Júnior, Nicolau dos Santos, Evaristo Perneta, Adolfo Werneck e Thiago Peixoto. O "Azul" foi muito importante no Simbolismo do Paraná, apesar de sua pouca duração. Colaborou também em todas as revistas e jornais da fase Simbolista, como Pallium, Turris Eburnea, O Sapo e o Olho da Rua, este último mais para o lado humorístico. Sua atuação mais duradoura foi no "Diário da Tarde", o que ensejou sua liderança sobre um grupo de jovens escritores, republicanos, livres pensadores, levando à criação do Centro de Letras do Paraná, em 1912.

Cronistas da época relatam as reuniões prévias, realizadas em 1912, dando destaque para a reunião do dia 14 de julho, no salão de honra do "Diário da Tarde", na qual se cantou de joelhos a "Marselhesa", o que demonstra a mística que a República recém proclamada e consolidada na Guerra Federalista despertava nos jovens idealistas da época. Assim, no dia 19 de dezembro de 1912, aniversário da instalação da Província do Paraná, no Salão de Honra do Diário da Tarde, reunidos 65 intelectuais paranaenses, foi fundado o Centro de Letras do Paraná.

Fato inusitado para a época, a presença de quatro mulheres: Annete Macedo, Carmen Catapreta, Alda Silva e Zaida Zardo.

Primeiro presidente do Centro de Letras do Paraná, teve importância fundamental numa polêmica contra os novíssimos e a corrente espiritualista do Modernismo, de caráter mais ideológico e menos interessado em romper com a geração consagrada, onde despontavam Tasso da Silveira, Andrade Muricy e Lacerda Pinto.

 

Casou-se com Joanina Ferrante e com ela teve filhos, dos quais Glaucio seguiu a carreira de Medicina e das Letras. Cultivou a crônica, em detrimento da poesia, e gostava de publicar peças humorísticas, assinando com os pseudônimos: W. Schowski, Delmiro Caiubi, Don Juan Lascivo, Ruy Pacheco, Marquês de Val de Vinos, Hélio, Gil, Gil Pachola, Glaucio, Fra Diávolo, Diavolino, Flavius, Shopp Nhauer, Hermann, Max e Stelio.

Quando da fundação da Academia Paranaense de Letras, foi-lhe oferecida a fundação de uma cadeira, que ele, por motivos próprios, não aceitou. Posteriormente, na reforma da Academia, foi-lhe atribuida a cadeira número 12, cujo ocupante atual é Ernani Straube.

 

Glaucio Bandeira publicou um folheto da biografia de seu pai.

 

Euclides Bandeira faleceu em Curitiba, em 26 de agosto de 1947.

Andrade Muricy classifica-o como "poeta de técnica segura e de gosto invulgar". "Foi o jornalista mais brilhante e o primeiro cronista do Paraná", acrescenta Muricy.


Bibliografia

Heréticos, 1901, poesia
A Mulher e o Romantismo, ensaio, 1901
Ditirambos, 1901, poesia
Velhas Páginas, 1902, poesias;
Versos Piegas, 1903;
Ouropéis, 1906
Troças e Traços, 1909, prosa;
O Monstro, 1927 - na "Novelas Paranaenses"
Prediletos, 1940 - coletânea de poemas;


Alguns de seus Poemas

Ausência

Recresce, arpoante e funda, a saudade cruel.
Corri ela foi meu sol, partiu minha risada!
Cada dia que passa é uma gota de fel
que se me infiltra na alma e a põe envenenada.

Mais larga a ausência, mais a lembrança dourada
resplandece, espertando emoções em tropel:
o riso, o gesto, a voz; boca a boca soldada,
os seus beijos febris que eram de fogo e mel...

Claro perfil de luz, louro encanto irradiando
o revérbero astral de flavescente véu
que dourava o meu sonho e o verso decadente.

Onde estás? interrogo. E a mágoa cresce quando
sinto tudo em silêncio em torno. .. O próprio céu
misterioso e azul, como os olhos da Ausente...



O Sapo

(A Emiliano Perneta)

Olha atentamente: é um sapo. Um sapo!...e nada
mais asqueroso que um sapo!...e nada mais
repugnante que o rei da água estagnada,
verde como a gangrena azebre dos metais.

Mirai-o bem, porém, como eu estou a olhar
esses que aos gorgolões de uma enxurrada crua
cuspiram da sargeta - upa! - cabriolas no ar,
e estatelou-se de redondo, ali na rua.

Caiu. Ficou. É mais chato que a laje lisa!
Há de encontrá-lo quem ao transitar em baixo
dos pés sentir, cedendo, a maciez de um capacho
de musgo fofo que afunda quando se pisa.

A pata de um corcel com ferraduras de aço
passando a galopar, mais lesto do que um corço,
talvez o esmague ao premir-lhe o dorso
fazendo-o vomitar as vísceras, o baço...

Mas ele ali está, quieto, desprevenido,
descuidado de si, do mal, das traições;
de resto o sapo é assim, parece andar perdido
sempre em profundas e sérias cogitações.

Ah! Quem sabe se nesse animal tão rasteiro
que mal consegue erguer-se um palmo além do chão,
não há uma centelha, um vislumbre, um ligeiro
clarão de inteligência, um timbre de razão!...

Se assim for, Santo Deus, ele que anda de rojo,
e nem sabe sequer que existem tantos sóis,
deste nosso paul, e de nós, todos nós!
que náusea há de sentir! Que desprezo e que nojo!

O mundo é um tremedal, envolve tudo a lama;
era um palácio de ouro assente sobre a lama
tragou-o um terremoto e, incendiado todo,
sumiu-se...Apenas resta uma língua de chama.

A Fé caiu no charco, o Bem em vil marmota...
A Liberdade - a Luz - num grande ceno hiante...
A Justiça - piedade! - uma ceguinha rota
aí anda a esmolar de porta em porta...Adiante!

Nada resta impoluto! É uma vasa o Universo.
Onde um canto de sol para o olhar da Pureza?
Há salpicos de lodo até no próprio verso!
Na alma, no mar, na terra, em toda a natureza!


...............................................

Ah! o sapo compreende o atascal de misérias
que afoga a Humanidade...Ao vê-la na asfixia
ele, às vezes deixando as atitudes sérias,
assume estranho ar de esplêndida ironia!

Compreende tudo!...E quando a lua nova, perdida,
divaga na amplidão envolta em manto gáseo
é por nós que ele coaxa uma nênia sentida
erguendo para os céus os olhos de topázio.

 



Predileto

É o tipo que me encanta, o louro. De relance
Nos enche de ouro fluido as pupilas surpresas...
Não Esse, para aflar as emoções burguesas,
Que anêmico flavesce idílios em romance.

É o flamante, o galhardos.. O louro de proezas
Ruivas ao sol, chispando áscuas, raios, nuance,
Que eletriza e que cega! O louro, enfim, que avance
Ao superno fulgor de pupilas acesas!

Freme-se ao vê-lo; há nervo, há vibração, há francas
Aleluias de luz! — labaredas de sândalo
A se evolar... No azul umas volutas brancas...

— Por tudo isso eu o quero e por ser tão escol
O ouro que te esplendora, ó Rúbia! ó flor de escândalo!
Ainda me tremem na alma umas réstias de sol... 

 

 


Colaboração:
Paulo Roberto Karam,
do Centro de Letras do Paraná e da Academia Paranaense da Poesia

 

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